Ruina, um Organismo Vivo de Encontro
Em Riacho Grande, o espaço de ocupação do ateliê foi uma ruína situada no complexo da antiga ONG Aldeias Infantis, conjunto de edificações que hoje abriga uma creche, um asilo, a marcenaria Lar Christian e a Associação de Ceramistas Baluarte. Mais do que cenário, a ruína tornou-se organismo vivo de convivência e observação, atravessando diretamente os modos de produzir, habitar e perceber o território.
O projeto aconteceu no contexto da residência Casco e teve duração total de seis semanas, articulando encontros online de curadoria, visitas técnicas, produção em ateliê próprio. De imersão situada em Riacho Grande foram duas semanas e foi nesse tempo de permanência contínua que a pesquisa encontrou sua dimensão mais relacional, moldada pelos encontros cotidianos e pela experiência direta do lugar.
A maior aproximação construída durante a residência foi com o mestre marcheteiro Celso Marcelino, conhecido como Xina, cujo ateliê, a marcenaria Lar Christian, localiza-se em frente à ruína ocupada pela artista. Durante o período de imersão, os encontros entre ambos tornaram-se quase diários, atravessando conversas sobre a paisagem, os mais que humanos da região e os modos de vida locais. Paralelamente, Haddad passou a frequentar aulas de marchetaria com Xina, estabelecendo uma troca prática e sensível que aproximou os procedimentos da marchetaria das composições desenvolvidas em seus painéis têxteis.
O título Nós somos fortes em dissolver rochas, fragmento extraído de um conto de Anna Tsing sobre as memórias de um esporo fúngico no livro Viver nas Ruínas, sintetiza a lógica da ocupação: um processo de infiltração, adaptação e criação. Assim como os fungos dissolvem minerais para criar novas relações ecológicas, a presença do ateliê temporário na ruína dialogou com as forças já existentes no espaço em busca de novas formas de convivência. Guiada pelo princípio da intervenção mínima, a ocupação preservou a ruína como protagonista; a ausência de eletricidade, o clima e os deslocamentos moldaram uma prática responsiva, em diálogo com a noção de arte como campo relacional formulada por Reinaldo Laddaga. Entre azulejos caídos, trepadeiras e vestígios materiais, a ruína deixou de operar como marca de abandono para afirmar-se como território de regeneração, encontro e criação compartilhada.



